terça-feira, 15 de abril de 2008

Review da Semana


John Mayer - Continuum (2006)

Mais recente álbum do guitarrista e cantor americano John Mayer,
Continuum é mais um passo de Mayer na transição do Pop para o Blues iniciada em 2005, com o disco Try, do John Mayer Trio, formado por Mayer nos vocais e guitarra, o grande Pino Palladino no contra-baixo e o competentíssimo Steve Jordan na bateria.

Continuum é, até a página nove, uma obra Pop. Porém demonstra uma grande imersão do cantor no Blues e no Soul. A guitarra de Mayer está cada vez melhor; seu timbre é cada dia mais claro e potente, com grande influência dos grandes "strateiros" como Stevie Ray Vaughan, Eric Clapton e, o maior deles, Hendrix. Alias, guardando todas as devidas proporções, a sua versão de "Bold as Love", um dos clássicos de Jimi, é tão boa quanto a original. Aliás, foi a partir desta versão que o disco chegou em minhas mãos. Mayer conseguiu dar um toque "soulful" a música, especialmente nos vocais. Imagino que, se Hendrix estivesse vivo, bateria palmas para esta faixa.

O resto do disco caminha pela mesma via: Músicas Pop, com refrões que grudam na cabeça do ouvinte, aliadas a levadas com bastante swing e arranjos, como diriam os grandes blueseiros, "kinda bluesy". Destaque para as faixas "Belief", "Slow Dancing in a Burning Room" e "Dreaming With A Broken Heart", uma balada como há muito não se via no
mainstream, com um quê de Marvin Gaye nos arranjos e SRV na guitarra. Aliás, Mayer trabalha muito bem neste álbum os arranjos da banda com sua guitarra. Ela entra sempre onde realmente deveria estar, nem um compasso a mais ou a menos. Prova disso é a faixa "Gravity", pra mim a mais bela do disco, em que Mayer consegue, com muita competência, dar emoção e ritmo ao seu instrumento e ao arranjo da mpusica, criando, pra mim, uma das mais belas composições que apareceram nesta primeira década do século XXI.

O disco tem outros pontos positivos também, como o hit "Waiting on the World to Change", com uma guitarra bastante Hendrixiana, novamente contrapondo os arranjos Soul com as cordas de Rock; "I'm Gonna Find Another You", "I Don't Trust Myself (With Loving You)" e "Vultures", uma das faixas compostas durante a época do Trio. "In Repair", faixa composta em parceria com Charlie Hunter (guitarrista base de Mayer que, em muitas faixas, toca uma guitarra de 8 cordas) tem aquela "vibe" sessentista, numa onda "Woodstockiana", que poderia ter sido muito bem interpretada por John Cocker naquele festival.

Duas faixas do álbum distoam um pouco das outras. "Stop This Train", um tema Pop (que bebe na fonte do Country), com um lindo arranjo acústico de Mayer e "The Heart of Life", que dança pela mesma pista que "Stop This Train", porém com um toque elétrico da guitarra característica do cantor.

Continuum é um disco produzido com elegância e classe. Suas músicas soam límpidas e claras para o ouvinte, com arranjos clássicos e, ao mesmo tempo, atuais. A idéia de "contínuo" que trás o título do álbum é muito bem trabalhada ao longo do disco, muito particularmente na forma como as faixas se desenvolvem. Além disso tudo, este disco mostra um Mayer renovado: ainda se esbaldando na fonte do pop, mas com seu instinto "bluesy" começando a aflorar de vez através da sua guitarra. Numa época em que a guitarra dá mais espaço a outros instrumentos, é possível vislumbrar quatro guitarristas que se diferem da maioria: Warren Haynes (Allman Brother/ Gov't Mule), Derek Trucks (Allman Brothers) John Frusciante (Red Hot Chilli Peppers) e Tom Morello (Rage Against The Machine/Audioslave). Esta obra dá ínico a caminhada de John Mayer rumo a este exclusivo patamar.